quinta-feira, 8 de março de 2012

Nicolau Maquiavel (1469 – 1527)

Os Textos de Maquiavel ganharam fama de lenda, apesar de considerados por seus contemporâneos como obra do demônio.
Maquiavel era sobretudo um pensador da política e foi o primeiro filósofo a estudar seus mecanismos encarando-a como um tema que está além das doutrinas morais. Sua obra está envolvida em mitos e infâmia, e foi mal compreendida por muitos.


O Diplomata
Em 1494, Florença, a cidade onde Maquiavel morava, caiu sobre o domínio dos franceses e, mais tarde, dos espanhóis. Isso ocorreu após um período de relativa estabilidade e avanço cultural, que contava com o apoio de uma aliança diplomática das cinco cidades-Estados italianas mais poderosas: Veneza, Milão, Nápoles, o Papado e a própria Florença (governada por Lorenzo de Medici). A forma pela qual a sua querida Florença foi forçada a abdicar do poder deixou uma profunda impressão em Maquiavel. Seu interesse político culminou com sua indicação para ser secretário e segundo-chanceler no governo da cidade. O cargo envolvia, sobretudo, tarefas diplomáticas, aproximando-o do universo de manipulações e vinganças dos políticos europeus. Em 1512, após o retorno dos Medici ao poder, ele foi destituído do cargo e, em seguida, entregou-se à sua carreira de “homem das letras”. Seu primeiro e mais famoso livro, O Princípe (1513), baseava-se em suas experiências como diplomata e foi escrito na forma de recomendações sobre a arte de governar para Lorenzo II, de Florença. Na carta que acompanha o livro, diz: “Estou ansioso para oferecer-me a Vossa Magnificência junto com algumas provas de minha devoção, e não encontrei entre os meus pertences nada que me seja tão caro ou que tenha tanto valor para mim quanto minha compreensão dos atos dos grandes homens...”.

O Príncipe foi dedicado a Lorenzo de Medici

O Príncipe
No livro, Maquiavel afirma estar escrevendo uma nova forma de teoria política, pois preocupava-se em apoiar-se na experiência histórica e não em princípios morais ou abstratos. Ele queria persuadir seus contemporâneos de que a prática de governar só pode ser julgada em relação à finalidade buscada por seus praticantes. O primeiro princípio do governo é a consolidação do poder e, por isso, o bom desempenho dos governantes só pode ser avaliado por sua força política. Isso não significa que os fins justificam os meios, pois se estes distanciassem da necessidade de consolidar o poder, sua segurança ele era ameaçada.
Para Maquiavel, o príncipe virtuoso não é o que governa por meio das leis do Bem e do Mal, mas o que mantém “a disposição de fazer todo o necessário pela busca da glória civil”. O termo “maquiavélico” é muitas vezes usado para descrever um tirano, mas isso denota apenas um uso errôneo de suas recomendações. Maquiavel não diz que os governantes devem ser tirânicos. Ao contrário, os governantes tirânicos estão, na verdade, ignorando as recomendações de Maquiavel, quando dizia que o príncipe “devia estar determinado a evitar tudo o tornasse odiado ou desprezado”. Isso significa que ele deve colocar-se acima da moralidade, mas ignorar isso quando estiver correndo riscos.

O Assassinato de César, de Karl T. von Piloty

Os Discursos
A impressão que a leitura de O Príncipe deixa é de Maquiavel como um pensador da política que não se interessava pelas outras formas de governo, mas apenas por seus efeitos em relação ao poder do príncipe. Isso, porém, é um retrato distorcido. Em Os Discursos, ele reflete mais seriamente sobre a finalidade à qual suas recomendações devem estar dirigidas, demonstrando claramente ser um republicano e um precursor do liberalismo moderno que escreve com paixão sobre a constituição e a liberdade.