sábado, 21 de maio de 2011

Entrevista

Aí está a transcrição da entrevista feita na Livraria do Trem sobre a venda dos discos de vinil.


(Fernanda – entrevistadora)
Queria que vocês falassem um pouco desse comércio de vocês. O porque vocês começaram agora? O vinil está certo que voltou a ser produzido, mas o que motivou vocês, além de tu [César] já ser colecionador, a trabalhar com os discos?

(César – informante)
A necessidade é claro. Necessidade, dinheiro... [risos]

(Daniel – informante)
A idéia da Livraria, do Sebo, é a de resgatar uma série de coisas. Eu, por exemplo, e no caso o Júlio também, somos apaixonados por livrarias e sebos já há muito tempo. Desde a nossa adolescência (nós nos conhecemos desde a infância) e sempre freqüentamos estes espaços, espaços estes que geralmente são tidos como alternativos.
Então, a partir dessa vontade de encontrar um espaço que atendesse as nossas necessidades, pensamos: porque não montar um espaço para atender aos colecionadores? Daí a Livraria do Trem foi criada. Primeiro com o conceito dos livros e, aos poucos, começamos a adquirir LP’s sempre com aquela vontade de trabalhar com o disco de vinil. O Júlio [César] já é colecionador há bastante tempo, desde sempre na verdade. Então, hoje ele tem um acervo com um número elevado de peças raras, discos que tem 300 cópias no mundo inteiro. Um material realmente difícil de “juntar”. Não sei, tu deves estar com quase 3 mil discos hoje?

(César – informante)
Por aí, por aí...

(Daniel – informante)
Então essa parceria que estamos fazendo (eu e o Júlio) acarreta todo um conhecimento da área do disco, desde a produção até ao ato de colecionar, enfim. O Júlio além de colecionador é músico também. O resultado era obvio - entrei em contato com ele e disse: vamos trabalhar juntos, vamos agregar essa história com os discos que tu tens. O mercado existe, está aí, apesar da dita “morte do vinil”, que parou de ser produzido aqui no Brasil e agora retomaram. O comércio de discos nunca parou realmente. Estatísticas dizem que hoje se vende um disco a cada dez segundos na internet, isso só no eBay, desconsiderando outros sites como o Mercado Livre e outros sites próprios que comercializam discos no Brasil e no mundo. Então nós começamos a trabalhar com o vinil aqui na Livraria do Trem. E temos a pretensão de trabalhar de uma forma bem qualificada, com conhecimento do produto, com o devido respeito e cuidado que a mídia e seus usuários merecem. Foi assim que nos juntamos e aqui estamos hoje, trabalhando agora a praticamente 7 ou 8 meses com discos.

(Fernanda – entrevistadora)
E como é que está a saída dos discos? É só na região metropolitana ou vocês estão conseguindo vender para fora?

(Daniel – informante)
Pois é, devido a internet nós estamos vendendo para o Brasil inteiro. Então, a saída, a procura pelos discos de vinil é boa. Como o nosso comércio de discos aqui na Livraria do Trem tem pouco tempo a procura por esta mídia aqui na loja ela está, como dizer... um pouco tímida ainda. Até por um processo todo de divulgação que está sendo feito aos poucos. A procura por discos aqui no espaço da loja vai acontecer com o tempo de trabalho. Porém, a procura (de forma geral, loja + internet) ela é diária, todos os dias saem discos, sempre tem alguém procurando algum LP.

(Fernanda – entrevistadora)
E para a capitação de novas peças para o acervo da loja, vocês estão comprando de outras cidades?

(Daniel – informante)
O último acervo que nós buscamos foi...

(César – informante)
Ijuí.

(Daniel – informante)
Ijuí. Nós fomos até Ijuí... Foram 5 mil discos que compramos lá. Então, esse foi o acervo mais distante que compramos. Até porque trazer discos de fora tem suas limitações como forma de transporte em casos de acervos de número elevado, custos de deslocamento para fazer uma avaliação do material entre outras tantas coisas. O normal é compras menores (em número de peças) nas cidades aqui do Vale dos Sinos. A não ser com o mercado de discos novos, estes nós importamos.

(Fernanda – entrevistadora)
Começaram a importar?

(Daniel – informante)
Sim. Começamos a importar.

(César – informante)
Para comprar um disco usado temos que fazer uma avaliação do material, e não tem como comprar sem verificar o estado do disco. O estado físico do LP tem que ser avaliado porque não há como fazer uma compra segura de “olhos fechados” no material usado, ainda mais no disco que é um material perecível. Pode acontecer de acabar investindo dinheiro em uma coisa que vai ficar encalhada se tu não fizeres uma análise boa do que está comprando.

(Fernanda – entrevistadora)
E tu César, como colecionador, quando encontras algumas peças raras (só dos “filés”), como é que tu fazes? Tu vais buscar para a loja ou para ti? Ou uma coisa é “o que é teu” e outra é o que tu vais “por na roda”? Como tu divides isso?

(César – informante)
Ah, ultimamente eu nem tenho comprado mais nada, não para mim. Não tenho mais espaço para guardar. Então, tudo que eu compro eu escuto, se é legal eu fico, se não passo para frente.
O fato é que não tem mais “disco difícil”, essa que é a verdade, com a internet se popularizou o acesso aos materiais que antes eram escassos devido a limitações geográficas. Hoje ficou bem mais viável de se achar títulos difíceis, não tem mais aquela coisa do “Paêbirú da vida”, há dez anos atrás ele era uma lenda, ninguém o tinha, hoje em dia tu achas. O “Louco por Você” tu achas também, então não tem mais esse problema todo de se achar títulos raros.

(Daniel – informante)
O “Louco por Você” não foi relançado ainda?

(César – informante)
Não foi, mas...

(Daniel – informante)
É o do Roberto Carlos.

(César – informante)
Para tu ver, por menos de R$ 3.500,00 não é assim para encontrar.

(Daniel – informante)
Sim...

(Fernanda – entrevistadora)
É. Essa questão da raridade é vocês [lojistas] que fazem. Pelo que tenho visto é uma questão meio “cada um diz que é”, “cada um tem o seu padrão” na verdade. É assim?

(César – informante)
Em alguns casos as raridades são feitas no “achismo”. Porém, existem formas de determinar a raridade ou não de uma peça.

(Daniel – informante)
É, tem a questão da raridade que depende da demanda e procura do disco. Todo disco, evidentemente, tem uma história. No caso do “Paêbirú” houve uma enchente na fabrica que dizimou praticamente toda a tiragem do disco do Zé Ramalho. Sobraram 300 cópias aproximadamente, é assim que reza a lenda. O original desse disco, hoje, vale em trono de R$ 3.000,00 mesmo já tendo sido relançado, que, por sinal, já está esgotado também.

(César – informante)
Sim, sim.

(Daniel – informante)
Mas, isso torna o disco raro? Até pouco tempo o disco não tinha sido regravado Porém, o LP ganhou popularidade com o tempo por vários fatores que vão para além do incidente da enchente. Por exemplo, até hoje o Zé Ramalho não quer falar sobre esse disco, um LP completamente psicodélico que poucos conhecem. Já o disco do Roberto Carlos, o primeiro dele, que é o “Louco por Você” não teve relançamento até hoje. Este ficou “famoso” porque foi um disco recolhido por ele e devido a isso estima-se que estejam circulando hoje no Brasil em torno de 300 cópias do LP. Então, isso faz dele uma obra rara, dado a importância do cantor e a outras peculiaridades do disco. Este, talvez, seja o disco mais caro do Brasil sendo vendido em torno de R$ 6.000,00.

(César – informante)
O que não significa que ele seja bom [risos].

(Fernanda – entrevistadora)
[risos]

(Daniel – informante)
Não. [risos]... Até porque o próprio Roberto Carlos considerou o disco ruim.

(Fernanda – entrevistadora)
Sim, ele não está na capa [risos].

(Daniel – informante)
Mas, essas peculiaridades é que tornam um disco raro e não o gosto ou critério do lojista. A música, neste caso, é o último detalhe a ser considerado. O que chama a atenção do colecionador nesses materiais é justamente a rarefação da peça. É um material que poucos têm acesso. Então, é daí que vem aquele desejo de se ter, no seu acervo privado, um disco extremamente raro e que fez história na discografia nacional ou mundial. Já, por outro lado, há coisas que foram editadas em algum município do interior do Brasil com tiragens limitadas que também poderiam ser raras. Peças que foram herdadas por gerações, só que é uma coisa tão específica que não tem um apelo nacional, não é um cantor conhecido e nem faz parte de qualquer contexto histórico cultural. Ou seja, o fato de ser antigo ou escasso não torna um disco raro, não com valor. É claro, que hoje um disco da década de 60, por exemplo, tem aí volta de 40 a 50 anos o que torna ele realmente difícil.

(Fernanda – entrevistadora)
Bom e no comércio de discos, rola mesmo essa competição entre comerciantes por esses acervos? Ou como é que funciona essa competição? Até porque vocês, aqui em São Leopoldo, são os únicos na área do vinil.

(César – informante)
Nós estamos bem distantes da capital então não rola tanto essa competição...

(Daniel – informante)
Já estiveram aqui na loja muitos comerciantes de Porto Alegre, quase todos que trabalham com vinil, que nós conhecemos pelo menos. Olhando o acervo, alguns não se identificaram, outros se identificam até porque nós conhecemos quase todos.

(César – informante)
Sim, sim.

(Daniel – informante)
Então, nós não estamos participando dessa “competição” porque nós ficamos realmente fora dessa forma de trabalho. Talvez por estarmos ilhados aqui em São Leopoldo fora de Porto Alegre. Em Canoas tem a Prisma Discos que é uma das lojas mais antigas da região. E, também, em São Leopoldo somos só nós. Iniciamos há pouco tempo este trabalho. Então neste quesito nós não sabemos como é que funciona a concorrência em Porto Alegre. Mas, eu aprendi pelo trabalho com o sebo que a questão da concorrência se dá de uma forma saudável, no trabalho, no atendimento, no qualificar o acervo. E como são produtos usados não significa que o que nós temos aqui o outro lojista vai ter em sua loja ou se tiver não significa que esteja nas mesmas condições. E, além disso, cada um tem seu público alvo o que torna possível comprar o produto de outro lojista para revender na nossa loja. Isto é um trabalho que fazemos.

(César – informante)
E o fã do disco ele compra independente de fidelização: “ah vou comprar sempre do cara”.

(Daniel – informante)
Os que compram aqui compram em outras lojas, eles conhecem todas as lojas da região e da Capital.

(Fernanda – entrevistadora)
E a essa altura vocês já tem alguns clientes? Vocês já têm uma rede de contatos?

(César – informante)
Sim, sim.

(Daniel – informante)
Pela própria carência que a região tinha e ainda temos o caso da venda pela internet, estamos indo bem. Até se divulgar melhor o trabalho que estamos fazendo com discos permanecemos criando uma clientela rapidamente que vem aumentando a cada dia. Tanto que tivemos que aumentar o nosso acervo que subiu consideravelmente. Nós começamos, há menos de um ano, com 400 discos (um acervo bem selecionado), hoje estamos com 10 mil discos em nossa loja. Isto superou muito as nossas expectativas, até mesmo de quando falávamos entre nós: “quando é que nós vamos ter 10 mil discos no acervo”, isso aconteceu bem antes do que esperávamos. E é claro, o número não quer dizer nada, até porque tu consegues juntar facilmente 5 mil discos só de Xuxa por exemplo.

(César – informante)
Ela [Xuxa] e novela... [risos].

(Daniel – informante)
A questão é a diversidade é a qualidade do acervo. Um material bem conservado, que é limpo, tem os seus reparos nas capas e nos encartes quando necessários. Um acervo assim é que faz a diferença.

(Fernanda – entrevistadora)
Vocês disseram que estão importando discos novos?

(Daniel – informante)
Sim.

(Fernanda – entrevistadora)
Até porque isso é uma coisa, que eu saiba, só outros dois lojistas faziam aqui no Estado, que é o cara da Boca do Disco e o da Toca do Disco em Porto Alegre.

(César – informante)
O Getúlio da Boca do Disco.

(Fernanda – entrevistadora)
É. E porque vocês começaram a importar? Como surgiu a demanda?

(César – informante)
Para diferenciar, trazer um produto para poder concorrer com os outros lojistas também, tem que ter um produto que chame a atenção. Se tem as mesmas “carnes de vaca” que têm nos outros lugares tu não vais vender nada.

(Daniel – informante)
E tem ainda a questão de quem é o cliente substancial do vinil hoje? Basicamente as pessoas que curtiam a mídia na década de 80 e de 90, principalmente na primeira metade, que foi quando estava rolando o forte do consumo do disco e que gostam de rock and’ roll. Então hoje o rock dos anos 60, 70, os rocks clássicos dos anos 80 também são muito consumidos e, aliás, esse é o gênero que mais vende hoje. Então é para este público que estamos trabalhando. As pessoas que já tiveram o disco e não tem mais com os relançamentos dessas obras eles têm a oportunidade de resgatarem esses LP’s como os discos dos Beatles por exemplo. Enfim, todos os grandes clássicos estão a disposição nos importados Tiragens limitadas, capas clássicas, edições piratas, todas lacradas.

(Fernanda – entrevistadora)
São raras?

(Daniel – informante)
Sim, algumas são raras mesmo sendo reedições. Esse cliente hoje é um consumidor já estabelecido, com um padrão social já bem definido e com a vida encaminhada. Então eles têm um poder aquisitivo maior. E o disco mesmo tendo voltado a ser prensado ele jamais vai voltar a ser popular. Porque ele tem uma outra idéia, um outro conceito de fruição... Não é só a música que está imperando ali. Se for ver hoje, num mundo extremamente globalizado com a internet, em tempos de uma velocidade exacerbada, as pessoas hoje escutam música fazendo alguma coisa qualquer. O disco ele te propõe um descanso para essas tecnologias, isso está para além do bem e do mal, não significa o que é melhor ou o que é pior e sim que são formas diferentes que estabelecemos em relação ao ouvir música.
Com o disco tu és obrigado a tirar o vinil da capa cuidando para não arranhar no manuseio, virar o lado do disco, limpá-lo adequadamente para guardá-lo após ouvi-lo, ou seja, tu paras para escutar a música. E isso proporciona um prazer, pra além do saudosismo, o vinil é diferente.
Com as novas tecnologias tu podes pegar um mp3 e escutar uma música correndo ou fazendo qualquer outra atividade. A música está na vida de todo mundo, mas como que tu consomes esse produto? Esse produto cultural, se é que podemos dizer assim.
Com o relançamento dessas edições clássicas acabamos por notar aqui na loja que o disco vem despertando certo fascínio, ele vem cativando aos poucos àqueles que são apresentados a essa “nova” forma de ouvir música. Novos usuários, pessoas que não tiveram acesso a essa mídia. Pessoas que já nasceram no tempo dos CD’s e mp3. Quando são apresentados a esse tipo de mídia ficam completamente fascinados. E é uma outra forma de consumir a música.

(Fernanda – entrevistadora)
Tu não colecionas?

(Daniel – informante)
Não...eu não coleciono.

(Fernanda – entrevistadora)
Tá, quem compra vinil é homem ou mulher? Mulher compra vinil? Porque tem essa lenda de que mulher não compra vinil.

(César – informante)
Compra.

(Daniel – informante)
Compra, compra....

(Fernanda – entrevistadora)
Geralmente é presente para o namorado [risos].

(César – informante)
Aí eu não sei [risos].

(Daniel – informante)
Olha... Se tu fosses um comerciante na década de 80, 90, eu não sei, talvez pudesse ser diferente, poderia ser um público mais masculino... Mas, hã... Hoje em dia não dá para definir assim quem compra mais, se é o homem ou se é a mulher. Porque é muito dividido, o público está circulando... Enfim, mesmo para presentear ou curtir, muitas mulheres entram aqui olhando e comprando discos.

(Fernanda – entrevistadora)
É isso aí...